Número de sílabas (desde 11/2008)

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domingo, 25 de junho de 2017

UM OVO CHEIO DE VÁCUO


As cãs, desprotegidas e humilhadas como um cão
de rua,
estéreis:
neve sobre sousas.
Da velhice tudo nasce
ou renasce, porém
sem novidade de vida.
Um cão velho que já errou suicídios
atravessando ruas
não persegue mais a cauda
nem brinca mais com o lixo;
aprendeu já a podridão,
perdeu de si já a curiosidade,
sabe já que é um cão.
Assim, nesse plano sem perguntas,
onde tudo é esconderijo,
retumba enorme o silêncio inventando labirintos.
Todo caminho leva de volta.
Todo pensamento é memória.
Toda criação é distorção de reflexo.

Estar velho é pior que ser velho;
a mão única da transitoriedade
ressignifica o retrovisor
e a poeira
e o mormaço
e o frio da ausência da luz.

Um ovo cheio de vácuo
inclode:
é a vida enganando com a estranheza
e o estranhamento
a expectativa.
O cálcio sem película da casca
perfeitamente involucral
é armadilha semiótica
esquecida na bandeja de ofertório;
não guarda nem esconde nem protege nada;
é o branco de que é feito o glaucoma
destes olhos que a terra há de comer.

23/06/17

quarta-feira, 24 de maio de 2017

PAPEL DE PÃO

Por acaso
há quem goste de acaso?
No fortuito encontro no ônibus,
no encontrão de desencontros,
encontram-me a mim, que tanta força faço
por ser perdido...
Dão-me sorrisos expectantes, cheios de minha ausência,
junto aos quais me dão a obrigação de preenchê-la,
o encargo pesadíssimo de continuar sendo quem fui,
mas já nem lembro!
Nomes soltos num rodamoinho,
rostos-fantasmas num malassombro de esquecimento,
e eu, ali, vivíssimo na expectativa da resposta onde nunca estive,
e eu, cá, contorcido como um cágado sem o luxo de seu casco
— cascos que funcionem são artigos preciosíssimos!

Odeio obrigações.
A pior de todas é a de situacionar as circunstâncias,
pois tudo que não é o que há de silêncio maciço e fulgurante,
tudo que não me enverga o arco da poesia
é circunstância!
— mas não me entendam mal:
colho muito trigo no chão ordinário e rotineiro e comum
que vira pão neste papel.
O papel da circunstância é o mesmo da visão periférica:
evitar a monomania de uma vida de tiro ao alvo,
ainda que este seja uma tatuagem no peito.

Não posso suportar a obrigação
de ter meu silêncio roubado.
Não planejei, não desejei o compromisso de me tornar palavras.
A palavra é a roupa pesada no dia quente da contemplação,
e é tempo de naturismos semióticos.

Encontrar é verbo consecutivo:
é ação deflagrada por outra.
Para haver felicidade no encontro,
há que se, primeiro, procurar,
caso contrário como reconhecerei o achado?
Porém, principalmente,
como serei eu mesmo reconhecido?

24/05/17

terça-feira, 23 de maio de 2017

MÉMOIRE


Todos que amei e perderam seus nomes
Nas curvas dos ônibus, na cachoeira das horas,
Por favor, perdoem-me.
Em meu coração, existem mais sentimentos que pessoas,
E todas viraram impressões, instantes de cores e formas e cheiros
Que me assomam no emaranhado do tempo.
Não as recordo; sou-as.
Suas vidas em minhas horas, nossas histórias num mémoire,
Um patuá de cabelo e sal
Que me protege de me esquecer de mim.
Sou todos conquanto me seja, às vezes, ignorado,
Pois ser é mosaico de encaixe com peças que sempre faltam.
Se me falto, sobram-me; sou mais o que transborda
Que o que o copo serve.
Só sou leve se sobejo;
Se me sou só, peso.
Perdoem-me minha lembrança tê-los feito circunstâncias.
É que sou perene e breve,
A eternidade temporã que sempre já se vai
E não tem nunca tempo que ceder:
Só trago combustível para a ida.
Não levo passageiros. Não dou carona. Viajo só.
Contudo, no meu rádio, são vocês que tocam,
E eu os assobio à noite sob as estrelas
Mesmo sem lhes lembrar os nomes.

15/05/17 

sábado, 22 de abril de 2017

RESSACA

O mar dos meus sonhos
é sempre praia e nunca é calmo.
Quebra alto e breve
cheio de força e fúria,
como um chucro matando a víbora.
Na linha, fico a alguns passos:
o coração, como o dele;
respingos de sangue espumoso e vapores de maresia
espargidos
me completam as narinas.
Sou ali a miniatura de um gigante,
o hipônimo do grande mistério violento
que fustiga as próprias costas
com a mesma grande pergunta cheia de dentes.
Devoro o corpo-chão;
como a minha areia;
salgo minhas entranhas;
erodo-me por completo
antes de me compreender.
Nada navega no mar dos meus sonhos,
exceto meus monstros brutos e inocentes,
em cardumes fraternos e canibalísticos.
Do lado de dentro da onda,
um ódio atlântico,
uma beleza monumental
cai e recai numa preamar vomitória,
como um touro de opala casqueando a arena.
A minha onda é murro na mesa,
dentes cerrados e crespos nas pálpebras.
Lá, no meu mar de aquário,
não há tempo nem mundo,
ninguém além de mim:
somente a perfeição da pureza furiosa,
a ausência de tudo
e a impossibilidade da morte por afogamento.

22/04/17

terça-feira, 28 de março de 2017

A JANELA DO ITINERÁRIO


A primeira gota da goteira
A menina do reflexo na vidraça suja
O rosto zefirino
O sorriso púrpura na banguela caetânica
A pintura velha na parede patinada
O excesso de tudo
A escapatória pela música escapadiça
A captura das ausências pelas fotos publicitárias
A malha suspensa de fios
A trama
A simpatia bêbada na miséria alheia
Galhos árvores folhas mortas asfalto
O assalto
O progresso
A progressão das colmeias
As colônias
As rinhas e as rainhas indelicadas
Onde está Clarice neste mundo de Madonnas virgens?
Os utilitários fora de estrada
Os postos de gasolina
Os penteados clônicos
Os desindivíduos
As impessoalidades egoísticas
— um mendigo limpo —
A máquina triunfal pessoana gggggggirrrrrrrrando

É só mais um moinho cervântico
— prisão aos loucos que nos recontam —
O carro-forte
A escopeta de chinelas Havaianas
As palmeiras imperiais
As sobras de Alcântaras e Bourbons
Os sobejos nas calçadas
Deus
O antagonismo cristão
Os vendedores de balas
Os tiros verbais
A morte travestida
Bancos
As alamedas gardênicas de flores de lixo
A verticalização babélica
A monoglose
A incompreensibilidade
A aula de Português

08/03/17

MAIS QUE PERFEITA


Foto: Talita Laila

(Para Talita Laila, aquela que mudou tudo)

Era uma mulher cheia
A pele estalando como a casca rosamarelada de uma manga-jasmim
O desde que a vira virara um desde sempre desses de infância
E a novidade de tudo acostumou-se a mim e à treva do desconhecido
Então, já não fui, já não era, já não fora:
Virara um todo presente, e meu tempo passou a chamar-se e a mim de JÁ.

O cais sertanejo donde partira meu barquinho
— uma nave desonesta, ignorante das estrelas
porém por elas metida em viagens espaciais —
Viu pela primeira vez o cheiro salgado da onda
E entendeu-se alcançado por uma viagem inédita:
Seria, enfim, ponto de partida
Quando já se tornara expedições

Essa mulher, o meu mais que perfeito presente,
Conjugou meus verbos
Interpretou meus sentidos
Intercalou-se em minha sintaxe
E me reescreveu
Como uma manga altera para sempre o paladar
De quem nunca deixou de ter doze anos.

17/02/17

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

TALITA


(Para minha esposa, minha vida, minha estrada e meu destino)

Foi na franja dos teus olhos
que me arderam nus e descarados
— além da face —
que te reconheci:
já te havia visto por aí, indecifrável,
oculta sob outras peles
na forma de um sangue que era só meu,
mas corria pelo ar,
batendo de meu coração as asas vermelhas.
Era um olhar de lança, de onça,
a parda morenice clara,
a caçadora vestida de caça,
à espreita, de esguelha, à espera de mim.

Eu, que te tanto construí,
era um menino perdido num labirinto de mármore:
tu, de braços langues e firmes,
sem pressa, sem pudor, sem medidas.
Nunca mais me achei os pedaços
que fiz questão de perder.
Eu era leve, e tu, celeste.

De ti, nascemos meu filho e eu:
ele, para fora; eu, para dentro.

Tu, que pariste a Flor e a Luz,
deste-lhes o cavaleiro, o pequeno homem
que nasceu sério e sozinho como o pai.
Tu me nasceste também.
Dentro de tua escuridão vermelha,
entendi os mistérios que me afastaram da vida
e que a mim a deram de volta,
macia, feroz, uma ilha vulcânica num mar de ondas verdes.
Contigo, aprendi a dormir e acordar,
a respirar, a caminhar sobre as brasas.
Tornei-me discípulo de uma religião sem mestre,
cuja deusa é a mim que cultua.

Sou teu. Sou tão teu que não me pertenço mais.
Tampouco, eu me quero.
Sou porque me fizeste.
Por ti, vida e morte, deuses e homens,
nada me importa:
se vivo, é porque teu coração bate;
por ele, bate o meu em Deus e no mundo
sem piedade.

Eu te amo, minha Mulher.
Sabias que eu não sabia de ti
o tanto que amava?
Venho-te descobrindo, desbravando,
percorrendo
e, quanto mais campeio, mais és terra, rios, serras, vales.
O labirinto de ti hoje é meu país e minha caverna,
onde, às margens da fogueira, acendo os olhos à memória-viva,
chama que renovou a terra e fez a vida renascer.

Tu, que tanto pedes,
mal suspeitas quanto tens…
Tens um homem.
Quantas poderão dizê-lo?
Quem te poderá tirá-lo?
Como poderás perdê-lo
se ele és tu, de tão teu que é?
Se notares, entenderás:
estou onde estiveres,
sou onde és,
vivo em ti
numa casa de longe, feita de vento,
espalhada
e cheia de mim.

Fortaleza, Padaria Pão&Café, 22/11/16, 18h42min

quinta-feira, 9 de junho de 2016

HISTO

(Clique na imagem para ampliá-la e no nome do autor, para acessar sua página)

(Para Miguel Hermano, meu filho, que, em meus sonhos, me sonhou)

 
Não demorei tanto tempo para escrever.
Venho escrevendo.
Sem tinta, papel, teclado, bits, impulsos mecânicos nem elétricos.
Venho escrevendo com meu corpo, minhas mãos, com minhas reações químicas,
Meus passos e meu cansaço, minha tão alterada pulsação,
Venho escrevendo.
Um romance.
Uma estória, uma historieta, uma estorietinha, porém um histo.
Um isto com agá: histo!
Histo, aportuguesamento meu do morfema grego histós,
Porque é histo que quero que seja: o que for, vertical.
Lagos são horizontais em sua placidez, e mesmo o mar, em suas revoltas.
A chuva, meu filho, a chuva é vertical!
Uma chuva de levitação, uma chuva que chova de volta às nuvens o mar que me fizeram.
Talvez venha escrevendo como quem acumula.
As letras atulhando-se, palavras potencializando-se em diques,
Um inchar-se de verbetes esperando a ascensão.
Devagarzinho, gotas e imensos amorfos líquidos efluindo-se baixinho,
Mais confessos que infensos, em direção às alturas.
Minha estorietinha, que vem de tão longe, galgou suas primeiras palavrinhas
Desde há muito, contando-se, contando-se…
Enumerando-se.
Meu romance vai muito bem, obrigado.
Seu primeiro tomo sai dentro de três semanas.
O resto, dizem, escreve-se sozinho.
Sozinho, sempre; sozinho, nunca!
A água, meu filho, é incontável.

09/06/16

quinta-feira, 28 de abril de 2016

DIÁLOGOS I

I
— Escrever nunca foi tão difícil.
— Por quê? Nunca é uma palavra assim tão inoperável?

II
— Desde quando você é assim?
— Sou novo nisso. De sua pergunta pra cá, tem uns três segundos.

III
— Não acho justo isso de aceitar mistérios. Somos desbravadores, vivemos em função das revelações.
— Eu, tampouco. Agora me diga: o que farei contigo de agora em diante?

28/04/16

domingo, 27 de março de 2016

AMOR

Acho que amo melhor de longe.
De perto, a mulher real atrapalha a imaginada.
Amar direito me parece ser possível
apenas em quadros, músicas e poemas,
lugares onde a vida não nos alcança e somos amorfos,
unívocos em nossas constantes transformações.

Amar não cabe nem no corpo nem na palavra.
É muito para sílabas, ainda que caiba na vogal
de um grito
ou de um gemido.

27/03/16