Número de sílabas (desde 11/2008)

counter

sábado, 22 de abril de 2017

RESSACA

O mar dos meus sonhos
é sempre praia e nunca é calmo.
Quebra alto e breve
cheio de força e fúria,
como um chucro matando a víbora.
Na linha, fico a alguns passos:
o coração, como o dele;
respingos de sangue espumoso e vapores de maresia
espargidos
me completam as narinas.
Sou ali a miniatura de um gigante,
o hipônimo do grande mistério violento
que fustiga as próprias costas
com a mesma grande pergunta cheia de dentes.
Devoro o corpo-chão;
como a minha areia;
salgo minhas entranhas;
erodo-me por completo
antes de me compreender.
Nada navega no mar dos meus sonhos,
exceto meus monstros brutos e inocentes,
em cardumes fraternais e canibalísticos.
Do lado de dentro da onda,
um ódio atlântico,
uma beleza monumental
cai e recai numa preamar vomitória,
como um touro de opala cascando a arena.
A minha onda é murro na mesa,
dentes cerrados e crespos nas pálpebras.
Lá, no meu mar de aquário,
não há tempo nem mundo,
ninguém além de mim:
somente a perfeição da pureza furiosa,
a ausência de tudo
e a impossibilidade da morte por afogamento.

22/04/17

terça-feira, 28 de março de 2017

A JANELA DO ITINERÁRIO


A primeira gota da goteira
A menina do reflexo na vidraça suja
O rosto zefirino
O sorriso púrpura na banguela caetânica
A pintura velha na parede patinada
O excesso de tudo
A escapatória pela música escapadiça
A captura das ausências pelas fotos publicitárias
A malha suspensa de fios
A trama
A simpatia bêbada na miséria alheia
Galhos árvores folhas mortas asfalto
O assalto
O progresso
A progressão das colmeias
As colônias
As rinhas e as rainhas indelicadas
Onde está Clarice neste mundo de Madonnas virgens?
Os utilitários fora de estrada
Os postos de gasolina
Os penteados clônicos
Os desindivíduos
As impessoalidades egoísticas
— um mendigo limpo —
A máquina triunfal pessoana gggggggirrrrrrrrando

É só mais um moinho cervântico
— prisão aos loucos que nos recontam —
O carro-forte
A escopeta de chinelas Havaianas
As palmeiras imperiais
As sobras de Alcântaras e Bourbons
Os sobejos nas calçadas
Deus
O antagonismo cristão
Os vendedores de balas
Os tiros verbais
A morte travestida
Bancos
As alamedas gardênicas de flores de lixo
A verticalização babélica
A monoglose
A incompreensibilidade
A aula de Português

08/03/17

MAIS QUE PERFEITA


Foto: Talita Laila

(Para Talita Laila, aquela que mudou tudo)

Era uma mulher cheia
A pele estalando como a casca rosamarelada de uma manga-jasmim
O desde que a vira virara um desde sempre desses de infância
E a novidade de tudo acostumou-se a mim e à treva do desconhecido
Então, já não fui, já não era, já não fora:
Virara um todo presente, e meu tempo passou a chamar-se e a mim de JÁ.

O cais sertanejo donde partira meu barquinho
— uma nave desonesta, ignorante das estrelas
porém por elas metida em viagens espaciais —
Viu pela primeira vez o cheiro salgado da onda
E entendeu-se alcançado por uma viagem inédita:
Seria, enfim, ponto de partida
Quando já se tornara expedições

Essa mulher, o meu mais que perfeito presente,
Conjugou meus verbos
Interpretou meus sentidos
Intercalou-se em minha sintaxe
E me reescreveu
Como uma manga altera para sempre o paladar
De quem nunca deixou de ter doze anos.

17/02/17

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

TALITA


(Para minha esposa, minha vida, minha estrada e meu destino)

Foi na franja dos teus olhos
que me arderam nus e descarados
— além da face —
que te reconheci:
já te havia visto por aí, indecifrável,
oculta sob outras peles
na forma de um sangue que era só meu,
mas corria pelo ar,
batendo de meu coração as asas vermelhas.
Era um olhar de lança, de onça,
a parda morenice clara,
a caçadora vestida de caça,
à espreita, de esguelha, à espera de mim.

Eu, que te tanto construí,
era um menino perdido num labirinto de mármore:
tu, de braços langues e firmes,
sem pressa, sem pudor, sem medidas.
Nunca mais me achei os pedaços
que fiz questão de perder.
Eu era leve, e tu, celeste.

De ti, nascemos meu filho e eu:
ele, para fora; eu, para dentro.

Tu, que pariste a Flor e a Luz,
deste-lhes o cavaleiro, o pequeno homem
que nasceu sério e sozinho como o pai.
Tu me nasceste também.
Dentro de tua escuridão vermelha,
entendi os mistérios que me afastaram da vida
e que a mim a deram de volta,
macia, feroz, uma ilha vulcânica num mar de ondas verdes.
Contigo, aprendi a dormir e acordar,
a respirar, a caminhar sobre as brasas.
Tornei-me discípulo de uma religião sem mestre,
cuja deusa é a mim que cultua.

Sou teu. Sou tão teu que não me pertenço mais.
Tampouco, eu me quero.
Sou porque me fizeste.
Por ti, vida e morte, deuses e homens,
nada me importa:
se vivo, é porque teu coração bate;
por ele, bate o meu em Deus e no mundo
sem piedade.

Eu te amo, minha Mulher.
Sabias que eu não sabia de ti
o tanto que amava?
Venho-te descobrindo, desbravando,
percorrendo
e, quanto mais campeio, mais és terra, rios, serras, vales.
O labirinto de ti hoje é meu país e minha caverna,
onde, às margens da fogueira, acendo os olhos à memória-viva,
chama que renovou a terra e fez a vida renascer.

Tu, que tanto pedes,
mal suspeitas quanto tens…
Tens um homem.
Quantas poderão dizê-lo?
Quem te poderá tirá-lo?
Como poderás perdê-lo
se ele és tu, de tão teu que é?
Se notares, entenderás:
estou onde estiveres,
sou onde és,
vivo em ti
numa casa de longe, feita de vento,
espalhada
e cheia de mim.

Fortaleza, Padaria Pão&Café, 22/11/16, 18h42min

quinta-feira, 9 de junho de 2016

HISTO

(Clique na imagem para ampliá-la e no nome do autor, para acessar sua página)

(Para Miguel Hermano, meu filho, que, em meus sonhos, me sonhou)

 
Não demorei tanto tempo para escrever.
Venho escrevendo.
Sem tinta, papel, teclado, bits, impulsos mecânicos nem elétricos.
Venho escrevendo com meu corpo, minhas mãos, com minhas reações químicas,
Meus passos e meu cansaço, minha tão alterada pulsação,
Venho escrevendo.
Um romance.
Uma estória, uma historieta, uma estorietinha, porém um histo.
Um isto com agá: histo!
Histo, aportuguesamento meu do morfema grego histós,
Porque é histo que quero que seja: o que for, vertical.
Lagos são horizontais em sua placidez, e mesmo o mar, em suas revoltas.
A chuva, meu filho, a chuva é vertical!
Uma chuva de levitação, uma chuva que chova de volta às nuvens o mar que me fizeram.
Talvez venha escrevendo como quem acumula.
As letras atulhando-se, palavras potencializando-se em diques,
Um inchar-se de verbetes esperando a ascensão.
Devagarzinho, gotas e imensos amorfos líquidos efluindo-se baixinho,
Mais confessos que infensos, em direção às alturas.
Minha estorietinha, que vem de tão longe, galgou suas primeiras palavrinhas
Desde há muito, contando-se, contando-se…
Enumerando-se.
Meu romance vai muito bem, obrigado.
Seu primeiro tomo sai dentro de três semanas.
O resto, dizem, escreve-se sozinho.
Sozinho, sempre; sozinho, nunca!
A água, meu filho, é incontável.

09/06/16

quinta-feira, 28 de abril de 2016

DIÁLOGOS I

I
— Escrever nunca foi tão difícil.
— Por quê? Nunca é uma palavra assim tão inoperável?

II
— Desde quando você é assim?
— Sou novo nisso. De sua pergunta pra cá, tem uns três segundos.

III
— Não acho justo isso de aceitar mistérios. Somos desbravadores, vivemos em função das revelações.
— Eu, tampouco. Agora me diga: o que farei contigo de agora em diante?

28/04/16

domingo, 27 de março de 2016

AMOR

Acho que amo melhor de longe.
De perto, a mulher real atrapalha a imaginada.
Amar direito me parece ser possível
apenas em quadros, músicas e poemas,
lugares onde a vida não nos alcança e somos amorfos,
unívocos em nossas constantes transformações.

Amar não cabe nem no corpo nem na palavra.
É muito para sílabas, ainda que caiba na vogal
de um grito
ou de um gemido.

27/03/16

CANTEIRO DE OBRAS

Huub Keulers - Old Tools
(Clique na imagem para ampliá-la e no nome do artista, para acessar sua página) 

Tentar escrever com os sentidos desatentos ao que é interno,
ao que só pode ser transcrito por meio de um estado isolado, insular,
clandestino,
ilegal no que diz respeito às relações humanas,
é apelar para a memória muscular do espírito
e esperar que ele vença a camisa de força do cimento da razão.

Para o caso de ser frustrado pela solidez do jazigo,
escrevo com marretas e pás,
ainda que me sangrem mãos e palavras
e que o braile resultante dos golpes seja o que grite no papel.

Antes o grito tátil que uma mudez mumificada.

27/03/16

O TEMPO DE AMAR

Rakotz Brücke, Alemanha
(Clique na imagem para ampliá-la)

Se eu tivesse todo o tempo de amar
E se amar me fosse dado,
Não amaria.
Amar não é pra quem tem tempo pra amar.
Amar é coisa tão marginal na vida
Que quem ama tem de roubar do seu tempo de vida
O tempo de amar
E sair metendo o pé na carreira
Com o coração pinotando de medo e euforia
E o ser amado debaixo do braço.

Amar não é pra gente limpinha de pezinho rosa
Nem pras clausuras dos cleros do Altíssimo.
Não amam quem nunca soube o que é chafurdar na lama
Da incompreensão e do ciúme
Nem os que simplesmente se entregam em voos suicidas.

Amar é não saber sequer o que é amar
E amar escondido, com medo de que alguém lhe diga
Que amar é outra coisa.
Amar não é outra coisa nem coisa nenhuma: é ponte entre nada e lugar nenhum
Sobre um rio de almas penadas.

29/12/15

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

DESDE SEMPRE


Quando nasci, meu corpo me bastava.
Era meu país e minha fronteira.
Cresci, e meus limites me exportaram
— imigrei ilegalmente para muitas terras,
donde eu mesmo me expulsei.
Com a idade, entendi que esta sensação
de não caber
tão bem me cabia que virei um expatriado sem bandeiras,
um retirante sem sertão.
Mal sabia eu que essa estrada que sempre se me abria
era nada mais que o maior pedaço de mim
que deixou para nascer depois,
uma voz de que me descobri eco,
a corda cuja vibração me soou.
Para onde vou agora, finalmente, ficou claro.
Desde sempre, meu amor, eu te quis
e te montei célula a célula num passado-futuro que agora está aqui.
Tu és mais que pode dizer o meu sangue.
Quando te mexeste, eu me assustei;
quando teu forte coração ribombou na sala escura, eu sorri.
Quando te vi em preto e branco, como num filme antigo, mudo,
eu me acalmei.
Não tenho um mundo grande para te dar como a mim me deram.
Tampouco, a força de quem me fez.
Mas o que tenho, filhinho, dentro deste coração grosso,
posto nestas mãos fortes,
é o homem que preparei para ti,
para tomar da tua mão e te levar para o que fores.
Eu sou a tua estrada, Miguel Hermano, calçada pedra a pedra
pelas tuas mãozinhas, que ainda nem nasceram.
O destino — dirão — é uma incógnita.
Porém, o teu é ser feliz,
e isto, meu filho, quem diz sou eu, o teu pai.

28/12/15